O PODER DA PALAVRA NA CABALA
Na Torá - livro de Vaikra ,correspondente ao Livro de Levítico ,no Antigo Testamento Cristão – está inserido o Mitzvah (ensinamento) do “Dan Lekav Zechut” que consiste no princípio de que deve-se dar às pessoas o julgamento mais favorável, concedendo-lhes,sempre,o benefício da dúvida.
Ele é um mandamento positivo e estudando os versículos que seguem a essa determinação vemos que um deles, taxativamente, diz que não se deve difamar o próximo ou seja “falar mal” dele, ter contra ele sentimentos de ódio ou vingança.
A Cabala - que segue os ensinamentos contidos na Torá - e os ensinamentos de todos os mestres cabalistas que a interpretaram, tem como um dos seus grandes princípios a abstenção do comportamento da “maledicência” que em hebraico diz-se “lashon hará”.
Llashon hará, literalmente, “língua má”, é qualquer discurso que ofenda outra pessoas ,e, detalhe importantíssimo, mesmo que as declarações sejam verdadeiras.
Assim vemos que o ensinamento que determina que se faça, sempre , um “julgamento mais favorável”,concedendo-se as pessoas o benefício da dúvida é a origem do mandamento de não se fazer lashon hará.
Ou seja, toda vez que fizermos um julgamento mais favorável, não alimentando sentimentos de vingança, inevitavelmente, isso nos conduzirá a não “falar mal “de uma pessoa.
Enfim, fazer um julgamento desfavorável está diretamente ligado ao ato de difamar, por outra, quanto mais julgarmos favoravelmente, menos “falaremos mal” do outro disseminando uma má-fama que poderá resultar em efeitos extremamente negativos para todos os envolvidos nos “comentários” que fazemos.
Devemos notar que o “falar mal” o Lashon Hará”, na verdade não um inocente comentário, um lapso da palavra, ele é,quase que invariavelmente, uma atitude consciente e, mais do que isso ele possui em sua raiz, na maioria das vezes, um julgamento precipitado, uma visão “condenatória” ou uma avaliação negativa baseada em premissas pessoais ou advindas da impregnação por conceitos ou julgamentos de outros.
No entanto,quando se fala em julgamento mais favorável, isso não quer dizer que somos obrigados a acreditar cegamente em tudo aquilo que as pessoas dizem para se “defender” de “acusações”,mas sim termos a consciência de que, na maioria das vezes, nós não temos acesso a todas as informações sobre aquilo que é afirmado contra a pessoa, ou seja não temos a possibilidade de examinar as “provas”, as “circunstâncias” , os “atenuantes”.
O que ensina a Cabala é que, diante de tais limitações que atingem nosso julgamento, devemos nos abster da opção pela “condenação” e, assim, deixarmos de praticar o inevitável lashon que decorrerá de nosso julgamento.
Quando julgamos desfavoravelmente agimos como se conhecêssemos profundamente as pessoas, os fatos, as circunstâncias e isso – na esmagadora maioria das vezes - não é verdade.
O importante é entender que abster do julgamento desfavorável, não é segundo os preceitos cabalísticos, uma “bondade”, uma “escolha. È uma obrigação de cada um de nós
OS EFEITOS DO LASHON
Os efeitos do lashon são triplos:
Para quem fala :
Traz à pessoa que fala toda a negatividade que envolve a situação, pois ele está repercutindo fato, verdadeiro ou não, em relação a uma pessoa.
Isso poderá – e quase sempre isso acontece - fazer com que outras pessoas se afastem de quem se falou, não confiem nele, o evitem. Criamos para nós, assim, um “ticun” (algo parecido com o conceito de “karma” dos hindus) pois, na verdade acabamos fazendo um “mal” à pessoa de quem falamos.
Para de quem se fala: Acumulam-se sobre ela conceitos, desejos, intenções que lhe produzirão dificuldades emocionais,sociais,econômicas, espirituais, imputamos-lhe uma má-fama que fará que um grande negatividade se acumule sobre ele.
Para quem ouve: Essa pessoa, aparentemente não atingida pelo lashon recebe e ressente-se de toda a negatividade do relato do fato, contamina-se com as opiniões, conceitos ou deles elabora críticas, o que gera ansiedade, angústia ,revolta,decepção.
UMA FORTE RAZÃO PELA QUAL O LASHON É UMA FALTA TÃO GRAVE:
Para você eliminar o efeito negativo do lashon deverá arrepender-se verdadeiramente.
Isso é muito difícil. Necessitaria, por exemplo, que você dirigisse à pessoa contra qual praticou o lashon e dissesse a ela que o fez.
A BÍBLIA CRISTÃ E O LASHON
O maldizer é tema recorrente na Bíblia nos livros do Antigo Testamento , mas,sobre ele também falou Jesus de Nazaré em suas pregações, como se vê no Evangelho segundo Mateus, no episódio em que é narrada a relação entre Jesus e a tradição dos judeus.
Em uma de suas viagens mestres judaicos vieram de Jerusalém para inquiri-lo sobre os ensinamentos que andava disseminando e o questionaram sobre várias atitudes de seus discípulos que seriam contrárias às leis judaicas,no caso, em relação ao fato de que os discípulos de Jesus não lavavam as mãos antes de tocar no alimento que ingeriam o que os tornariam impuros.
É nesta ocasião que Jesus se reporta ao ensinamento cabalístico acerca do lashon hará dizendo:
O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem”. (Mateus 15.10)
Essa é a própria essência da proibição do lashon, pois como explicou Jesus, o que entra pela boca do homem é expelido pelo seu corpo, mas o que sai pela boca vem do coração, da alma e impregna o homem: os maus pensamentos, o julgamento duro, as mentiras, as calúnias .
O lashon está presente de forma avassaladora em nossas vidas e é praticado, quase sempre, não ocasionalmente,mas como uma prática diária, não só no âmbito de “conhecidos” ,mas em relação a toda e qualquer pessoa que tenha uma vida “exposta”, “pública”
Os julgamentos que são feitos são cada vez mais ferozes e com um poder de destruição muito maior devido à grande influência da mídia sobre a “opinião” das pessoas.
A mídia que sob o aspecto positivo informa e alerta, perdeu uma grande dose de sua isenção e, frequentemente, divulga,manipula e distorce informações de acordo com os interesses de grupos econômicos e políticos.
A destruição de carreiras, reputações, trajetórias é feita de maneira feroz,sendo a “presunção de culpa” a regra e o julgamento benéfico e o benefício da dúvida , a exceção.
É certo que precisamos resgatar essa “Mitzva” cabalista em benefício de um mundo mais harmonioso ,no qual as pessoas não se dediquem por pura falta de “diversão”a disseminar e a contaminar-se com a treva da maledicência.
Reflita sobre o tema. Seja um difusor da conciliação ,um observador mais “silêncioso” da condição humano.
Traga luz à sua vida, ao Planeta e ao Universo.
Shalom e Shanti.

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